12 Minutos

Eles se conheceram numa cidadezinha, no interior do estado, num domingo, quando ela ainda terminava o colégio. Pouca coisa sobre aquele dia ainda estava viva na memória deles. Como toda menina romântica, ela se apaixonou por aquele carinha atencioso, carinhoso e cheio de papo. Por morarem em cidades diferentes, perderam contato e, como dele ela só sabia seu nome, ele se tornou então o seu grande amor platônico.

Alguns meses depois, recebeu uma carta com uma foto, uma dedicatória e um papel de caderno com frases soltas pedindo que nunca o esquecesse.

A foto ficou por muito tempo em sua cabeceira ou dentro dos livros do vestibular. Depois disso, se viram mais uma vez. Na época, ela já estava na faculdade e recebeu a notícia que iria passar um dia inteiro fazendo um trabalho de campo, naquela cidadezinha tão mágica.

Resolveu arriscar, respondeu a carta e marcaram de encontrar de novo. Ela não achou que ele apareceria. Ele não achava que ela voltaria.

Passaram algumas poucas horas juntos, mas pelo menos dessa vez ela poderia se lembrar direitinho do rosto dele (e ele o dela).

Ela foi embora, eles foram perdendo o contato, conhecendo outras pessoas, seguindo outros caminhos e acabaram se perdendo.

Ele casou, ela se formou.

Ele teve uma filha, ela se formou de novo.

Ele construiu sua vida em cima dos exemplos que teve, ela queria mais do que tinha.

Ela mudou de cidade, saiu pelo mundo, viajou, trabalhou e ele nunca mais soube o que teria acontecido com ela. (até bem pouco tempo)

A vida deles era como deveria ser. Cada um no seu lugar, construindo suas bases, histórias, aprendendo a lidar com alegrias e, claro, algumas tristezas e perdas.

Eles não nasceram pra ficar um com o outro. Nada conspirou a favor. Nada empurrou um pro outro. Ou pelo menos nunca acreditaram nisso.

Um dia, assistindo TV, ela se lembrou dele.

Nome. Sobrenome. Sorriso. Ahhhh o sorriso.

E lembrou principalmente da música que tocava quando eles se conheceram.

Ela tinha uma memória boa. Ele nem tanto.

Ele tinha um coração enorme. Ela, que não era mais aquela menina de quase 20 anos, cresceu e ficou racional demais.

Ela procurou por ele. Encontrou.

Ficou feliz por vê-lo bem. Mas não se apresentou.

Ele a viu, observou de longe, e deu um jeito de ser notado.

Mais de 10 anos haviam se passado.

Eles não sabiam como dizer, o que dizer e na medida que iam trocando mensagens foram se abrindo e contando um ao outro um pouco do que haviam vivido até ali. Eles viveram muito, fizeram muito e falaram muito também.

Não viram a hora passar, voltaram no tempo e sentiram como aqueles dois jovens que se conheceram num domingo de inverno numa cidadezinha entre as montanhas de Minas.

Mas, apesar de tudo isso, a distância ainda continuava.

Ela estava longe, ele sempre ocupado.

Ela quis vê-lo, mas não tinha coragem.

Ele quis vê-la, e viu.

As pernas tremiam, as mãos suavam, as palavras e as histórias saiam desembestadas e eles não sabiam o que fazer. Ficaram ali, olhando um pro outro, reparando as marcas do tempo, reconhecendo um pouco de um no outro e relembrando palavras e sentimentos.

Eles não sabiam, mas aquilo era só o começo (ou fim) da história que um dia tiveram.

Ela se despediu, ele foi embora.

Ela ficou paralisada, quis chorar, sorriu e teve a certeza que nunca mais se esqueceria daqueles 12 minutos.

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